terça-feira, 16 de abril de 2013

PLURALIDADE CUTURAL NO ÂMBITO ESCOLAR

 PLURALIDADE CUTURAL NO ÂMBITO ESCOLAR

Adriana Farias Jucá
Crislane Teixeira de Araújo
Joseane Américo da Silva
Mauricelia Santos de Oliveira

Resumo: Este ensaio alude à questão da pluralidade cultural no âmbito escolar, no qual os autores abordados procuram mostrar de forma explícita essa dimensão de culturas e a forma como o etnocentrismo, o multiculturalismo, e o relativismo cultural, compreendem essa discussão tão importante tanto para os docentes, como para os discentes. Portanto, nos focaremos nessa questão de modo a mostrar a importância desse tema e as contribuições da antropologia para o estudo do mesmo.

Palavras-chave: Pluralidade cultural, etnocentrismo, relativismo cultural.

Abstract: This essay alludes to the issue of cultural diversity in the school, in which the authors addressed explicitly seek to show that dimension of cultures and how ethnocentrism, multiculturalism and cultural relativism, comprise this discussion so important for both teachers as for the students. Therefore, we will focus on this issue in order to show the importance of this issue and the contributions of anthropology to the study of it.

Keywords: Cultural Plurality, ethnocentrism, cultural relativism.

Introdução
O presente artigo irá elucidar a importância da cultura na vida do ser humano, relatando que são inúmeras as diversidades culturais encontradas no mundo, e que tais diversidades também serão encontradas no âmbito escolar, aludindo também à importância da posição do professor frente a essas diversidades, para que os mesmos possam se questionar como estão agindo no âmbito escolar, se estão utilizando o conceito de relativismo cultural ou se estão agindo de maneira etnocêntrica.
Para elaboração desse trabalho serão utilizados como referencial teórico LARAIA (2009), OLIVEIRA (2012), GUSMÃO (2003), ROCHA (2007), BRASIL (1997), e os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN).  E serão especificados os conceitos de etnocentrismo, relativismo cultural, multiculturalismo, pluralidade cultural. Neste trabalho será apresentado o importante papel da escola em lidar com essas diversidades culturais, para que possam os docentes e discentes respeitar as diferentes formas de expressão cultural.

PLURALIDADE CUTURAL NO ÂMBITO ESCOLAR

No Brasil e no mundo de forma geral, há uma grande diversidade social e cultural de povos, onde cada um tem a seu modo uma forma de ser, de pensar e de agir dentro da sociedade. Na escola não é diferente, nela também há essa diversidade. Caminhando nessa perspectiva CUNHA citado por GUSMÂO (2003, p.83) afirma que “[...] ainda são as diferenças o que move as sociedades desse planeta”.
Conforme os Parâmetros Curriculares Nacionais na década de 30 surgiu à ideia ligada a escola de um Brasil sem diferenças, formado por origens especificamente de três raças: o índio, o branco e o negro que se dissolveram dando origem ao brasileiro, tal fato tem sido mencionado em livros didáticos, paralisando as diferenças culturais e muitas vezes submetendo uma cultura à outra.
Segundo Gusmão (2003, p.85) “é verdade que reconhecemos a presença do índio e do africano em nossa formação, mas quando contamos a nossa história, ficam eles esmaecidos ou ausentes, dada a magnitude do branco”. De acordo com essa perspectiva da autora, há o reconhecimento da presença do índio e do africano em nossa formação, mas ainda assim eles são tratados como outros, ou seja, como os diferentes. A eles são atribuídos pouco ou nenhum valor e sua imagem é denegrida. Assim fica bastante clara a necessidade de se ensinar as crianças desde cedo o respeito mútuo as diferenças, para que elas cresçam sem esse preconceito contra as culturas alheias.
O referencial teórico a seguir de LARAIA expõe que:
Ruth Benedict escreveu em seu livro O crisântemo e a espada[1] que a cultura é como uma lente através da qual o homem vê o mundo. Homens de culturas diferentes usam lentes diversas e, portanto, têm visões desencontradas das coisas. (LARAIA, 2009, p.67)
Desta forma o conceito de cultura está relacionado às diversas maneiras que o homem tem de enxergar o mundo e de fazer suas próprias escolhas, de como deve agir no meio em que vive, envolvendo as questões sociais.
No contexto educacional a cultura tem grande importância, pois, auxilia o professor entender o multsignificados que a cultura expõe em sala de aula, onde os alunos aprenderão a lidar com sua própria cultura, as semelhanças e diferenças encontradas nas diversidades culturais existente em cada lugar, região, Estado, país, ou seja, em todo o mundo. Tanto educadores quanto educandos poderão através da cultura, se posicionar em meio a todas as formas de se pensar o mundo e aqueles que nele vivem, a cultura é incapaz de pensar individualmente.
 Segundo OLIVEIRA (2012, p. 125) “[...] a própria cultura deve ser compreendida como um processo educativo.” Essa afirmação nos leva a pensar que no âmbito escolar não seria possível proporcionar aos alunos uma educação sem expor conceitos sobre cultura e que ambas “cultura e educação” estão unidas para levar os estudantes a interpretar as diferenças culturais, sociais entre os grupos humanos.
Faz-se necessário explicitar o que é ser diferente. Nesse caso Gusmão (2003, p.86) relata que “para Brandão (1986, p.7) o diferente e a diferença são parte das descobertas de um sentimento que, armado pelos símbolos da cultura, nos diz que nem tudo é o que eu sou e nem todos são como eu sou”. O autor ressalta aqui que nem todas as pessoas são iguais, pois há muita diferença entre os homens, nenhuma pessoa é considerada igual ou semelhante à outra, visto que a diversidade de pessoas é vasta na terra.
Ressaltamos aqui o conceito de multiculturalismo que segundo SILVA (2010, p. 85), “é um movimento legítimo de reinvidicação dos grupos culturais dominados no interior daqueles países para terem suas formas culturais reconhecidas e representadas na cultura nacional”. E para a concepção pós-estruturalista da perspectiva crítica do multiculturalismo,
a diferença é essencialmente um processo linguístico e discursivo. [...] a diferença não é uma característica natural: ela é discursivamente produzida. [...] são as relações de poder que fazem com que a “diferença” adquira um sinal, que o “diferente” seja avaliado negativamente relativamente ao “não-diferente”. (SILVA, 2010, p. 87)
A diferença não é ruim, é uma coisa boa, pois ela representa identidade, mas como o referencial teórico de SILVA explicita a mesma é transformada discursivamente em algo ruim. É nesse fato, portanto, que reside o problema, como também nas relações de poder que promove a desigualdade para com o diferente. Acerca disso, SANTOS citado por GUSMÃO afirma:
Nos planos econômicos, social, político e das relações pessoais, diferença tem significado, em nosso país, quase sempre de desigualdade; ou mais exatamente: as diferenças étnicas, culturais, fenotípicas, serviram de marcas entre desiguais sociais. (SANTOS, apud GUSMÃO, 2003, p.90)
Com esse argumento o autor relata que a diferença tem significado quase sempre de desigualdade, pois ser diferente é ser desigual ao eu, é se manter longe da imagem do mesmo; ser diferente é não ter domínio da semelhança e da identidade do outro.
O multiculturalismo se opõe ao etnocentrismo, apelando para o respeito, a tolerância e a boa convivência entre as culturas, respeitando e tolerando a diferença, porque mesmo diante da diferença há uma mesma humanidade. Diante disso o multiculturalismo tem sido criticado por ser adepto ao relativismo cultural. ROCHA conceitua o etnocentrismo da seguinte forma:
É uma visão de mundo onde o nosso próprio grupo é tomado como centro de tudo e todos os outros são pensados e sentidos através dos nossos valores, nossos modelos, nossas definições do que é a existência. (ROCHA, 2007, p.7)
Como fora citado por ROCHA (2007) o etnocentrismo é uma visão do mundo, onde o nosso próprio grupo é colocado como centro de tudo e de todos, onde os outros são pensados e sentidos por meio de nossos modos, nossas definições do que é existência. Considera sua raça, ou grupo social como centro da cultura, não sendo possível encontrar no outro uma forma possível de relaciona-se.  Um olhar etnocêntrico sobre a diferença do outro e de sua identidade, requer que o outro negue o que ele é, para então integrar-se a si a identidade do eu, como único modelo a ser seguido.
Os educadores estão no meio do eu com o nós, é o professor lidando constantemente com os alunos. Desta forma se faz necessário estudar o etnocentrismo para que o professor possa saber qual tipo de prática pedagógica esta utilizando em sala de aula. A visão etnocêntrica é uma forma universalizada de enxergar o mundo, o racismo, por exemplo, pode ser considerado como um caso extremo de etnocentrismo o qual muitas vezes age de forma silenciosa.
O relativismo cultural diferente do etnocentrismo busca levar o ser humano se familiarizar com o estranho, parte do pressuposto que cada cultura se expressa de forma diferente. Dessa forma, trata-se de pregar que a atividade humana individual deve ser interpretada em contexto, nos termos de sua própria cultura. Respeitar as culturas distintas além daquela que participa.
Diante da pluralidade cultural que caracteriza a sociedade brasileira é um desafio tornar a escola um espaço afável e elucidativo da diversidade etnocultural, embasado na tolerância e no respeito conduzindo a superação do preconceito e da discriminação. “Nesse sentido, a escola deve ser um local de diálogo, de aprender a conviver, vivenciando a própria cultura e respeitando as diferentes formas de expressão cultural”. (BRASIL, 1997c, p.32).
Com base nos parâmetros curriculares nacionais “valorizar as diferenças étnicas e culturais não significa aderir aos valores do outro, mas respeita-los como expressão da diversidade...”, ou seja, o indivíduo mesmo não concordando com os valores do outro, a forma de viver mediante as diversidades culturais, deve respeitar de maneira que, seja preservada a cultura de cada povo existente.
De acordo com (BRASIL, 1997c, p.32) para viver democraticamente em uma sociedade plural é preciso respeitar os diferentes grupos e culturas que a constituem”. Nesse contexto Conforme os fundamentos éticos do parâmetro curricular nacional a contribuição da escola na construção da democracia é promover princípios éticos de liberdade, dignidade, respeito mutuo, justiça, equidade e solidariedade.
É sabido que, a diversidade cultural tem sido bastante discutida por autores importantes no campo da antropologia, uma das grandes questões a ser abordada está relacionada ao reconhecimento das diversidades das culturas existentes, buscando ir além das tensões e conflitos relacionados às diferenças étnicas, raciais, sociais e de gênero, procurando a concretização de uma sociedade democrática. O ambiente escolar é considerado um lugar estratégico para lidar com essa situação, propondo desta forma o reconhecimento das diversas culturas existentes.
A educação escolar torna-se privilegiada para propor respostas aos problemas culturais encontrados no âmbito escolar, porém isso não significa que estas promovam o convivo democrático com a diferença. Na escola podem ser ensinadas as regras do espaço público, apontadas historicamente pelo desrespeito a diferença: bem como fosse possível que a desigualdade, a injustiça, e os demais conflitos, encontrados na sociedade pudessem está ausente do contexto escolar. De acordo com BRASIL...
É errado conceitual e eticamente, sustentar argumentos de ordem racial/étnica para justificar desigualdade socioeconômica, dominação, abusos, exploração de certos grupos humanos. Historicamente, no Brasil tentou-se justificar, por essa via, injustiças cometidas contra povos indígenas, contra africanos e seus descendentes, desde a barbárie da escravidão a formas contemporâneas de discriminação e exclusão destes e de outros grupos étnicos e culturais, em diferentes graus e formas. A escola deve-se posicionar-se criticamente, em relação a esses fatos, mediante informações corretas, cooperando no esforço histórico de superação do racismo e da discriminação. (BRASIL, 1997, p. 13-14).

O autor expôs em seu discurso que é errôneo utilizar argumentos de ordem racial/étnica para explicar desigualdade socioeconômica, abusos, dentre outros, pois, existiram inúmeras tentativas no Brasil de se justificar as injustiças cometidas contra outros povos (indígenas, africanos e seus descendentes) na época da escravidão, no entanto não fora alcançando êxito. O mesmo ainda menciona que a escola deve torna-se crítica em relação aos fatos já supracitados e cooperar de inúmeras maneiras para que haja a superação do racismo, e da discriminação.
Há também as relações existentes entre a desigualdade social e a situação de grupos portadores sociais de características culturais diferenciadas no país. Segundo BRASIL (1997, p.2) “as produções culturais não ocorrem ‘fora’ de relações de poder”. Em sua fala o autor explicita que as produções culturais, ocorrem por meio das relações de poder. Todavia são inúmeras as tentativas de apaziguar as ações de dominação, repressão, e homogeneização, para que possamos estabelecer uma sociedade brasileira mais justa.
A escola como instância formadora tem fracassado quanto à diversidade que constitui a humanidade, pois ela age de forma etnocêntrica, não pautando as diferentes culturas dos alunos existentes nesse âmbito escolar, afirmando que todos são iguais, e que não há diferença entre eles.
É cabível a escola para oferecer uma boa educação aos discentes conhecer e compreender a cultura de cada um deles, mas para que isso ocorra se faz necessário vivenciar a realidade dos mesmos, com o auxílio da antropologia que ajuda a compreender o contexto em que o outro está inserido. Nisso há a valorização da diferença, onde a mesma ganha sentido e liberdade de se expressar na escola e na sociedade.
A escola é mais do que transmitir conteúdos, ela é o espaço de convivência da cultura. Por isso há uma grande preocupação no mundo e principalmente na escola em estabelecer uma educação que incentive o respeito à diversidade. Assim é dever da escola promover o conhecimento mútuo entre os alunos sobre as diferentes culturas. No trecho a seguir GUSMÃO relata que:
[...] a pluralidade cultural de grupos étnicos, sociais ou culturais necessita ser pensada como matéria prima da aprendizagem, porém nunca como conteúdo de dias especiais, datas comemorativas ou momentos determinados em sala de aula. Fazer isso é congelar a cultura, reificá-la, transformá-la em curso de folclorização, e como tal acentuar as diferenças. Nesse processo, rompe-se a possibilidade de comunicação e de aprendizagem para reforças os mecanismos discriminatórios e a desigualdade, instaurando a impossibilidade da troca e dos processos de equidade entre sujeitos diferentes. (GUSMÃO, 2003, p. 95-96)
Dessa forma se faz necessário pensar a pluralidade cultural como necessariamente essencial à aprendizagem, não limitando esse ensino apenas a datas comemorativas, ou momentos determinados pelo professor em sala de aula, mas ocorrendo em todo o processo da aprendizagem dos discentes.
Quando os alunos chegam à escola, eles chegam com posturas, conhecimento e percepção de mundos diferentes. Mas dentro dessa instituição suas histórias, suas culturas e seus mundos lhes são negados, visando inserir neles o conhecimento real e legítimo, um conhecimento elaborado (ciência). Agindo dessa forma a escola separa o contexto social e cultural dos alunos, se construindo como universo a parte do mundo deles, preparando-os apenas para competências específicas, como: dividir, contar, ler e escrever. É importante que o professor saiba ouvir aos seus alunos, sobre o que eles têm a dizer de si mesmo e do outro no convívio diário.




Considerações finais

Em suma, a diversidade cultural pode ser encontrada em toda parte do mundo, sob tudo na escola. Pois, é justamente nesse ambiente que se deve começar a refletir a cerca dos preconceitos que, infelizmente, ainda hoje persistem contra as pessoas de diversas raças (indígenas, africanas entre outras) que são tratados de maneiras diferentes. Assim, a escola precisa servir de instrumento de transformação não apenas ensinando os princípios básicos das grades curriculares, mas, buscando maximizar e fortalecer a relação e interação entre discentes e docentes onde aqueles que são vistos como diferente sintam-se efetivamente iguais a todos que dividem o espaço educacional.
Desta forma se faz necessário à participação assídua de todos que compõe não apenas a escola, mas, também a sociedade em geral, pois muitos são os preconceitos que ocorrem contra as pessoas que vivem de acordo a sua própria cultura.
 





Referências

BRASIL. Secretaria de Educação Fundamental. Parâmetros curriculares nacionais: pluralidade cultural. Brasília: MEC/SEF, 1997.

GUSMÃO, Neusa Maria Mendes de. Os desafios da diversidade na escola. In: GUSMÃO, Neusa Maria Mendes de.(Org.). Diversidade, cultura e educação: olhares cruzados. São Paulo: Biruta, 2003.

LARAIA, Roque de Barros. Cultura: um conceito antropológico. 24. ed. Rio de Janeiro: Jorge Zarrar Ed., 2009.

OLIVEIRA, Amurabi. Antropologia e antropólogos, educação e educadores: o lugar do ensino de Antropologia na formação docente. Percursos: revista. Florianópolis, v. 13, n. 01, p. 120-132, jan./jun. 2012.

ROCHA, Everardo P. Guimarães. O que é etnocentrismo. São Paulo: Brasiliense, 2007.

SILVA, Tomaz Tadeu da. As teorias pós críticas. In:______. Documentos de identidade: uma introdução às teorias do currículo. 3. ed. Belo Horizonte: Autêntica, 2010, p. 85-90.

VALENTE, Ana Lúcia E. F. Conhecimentos antropológicos nos parâmetros curriculares nacionais: para uma discussão sobre a pluralidade cultural. In: GUSMÃO, Neusa Maria Mendes de.(Org.). Diversidade, cultura e educação: olhares cruzados. São Paulo: Biruta, 2003.

______. A propósito dos parâmetros curriculares nacionais sobre a pluralidade cultural. Educação: Revista do Centro de Educação IUF SM, vol. 26, n. 01, 2001. Disponível em: http://coralx.ufsm.br/revce/revce/2001/01/a1.htm. Acesso em: 08 de Março de 2013, as 14:00 hs.



[1] Ruth Benedict, 1972.